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22 de Agosto de 2019

Setembro Amarelo: A relação entre trabalho e suicídio

Texto válido para a atualidade

Andreia Ramires Goncalves, Profissional de Recursos Humanos
há 11 meses

O suicida
Não restará na noite uma só estrela.
Não restará a noite.
Morrerei e comigo irá a soma Do intolerável universo.
Apagarei medalhas e pirâmides,
Os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei da história pó, do pó o pó.
Estou a olhar o último poente.
Ouço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.
(Jorge Luís Borges)

O que dá razão e sentido ao viver pode constituir-se em razão para morrer, como refletia Camus. O trabalho, enquanto atividade humana, dá sentido à vida, fortalecendo a identidade e a dignidade do trabalhador.

Os novos modelos de gestão adotados pelas empresas, associados às reestruturações e downsizing (redução de pessoas) frequentes, aumentaram a insegurança e, consequentemente, o nível de autoexigência ante o medo de perder o emprego por não ser avaliado adequadamente, o que, de forma direta, aumenta o nível de sujeição frente às práticas despóticas presentes no mundo do trabalho.

Essa nova realidade do mundo do trabalho precarizado, flexível, fragmentado e produtor de desemprego usa, frequentemente, a micropolítica das humilhações cotidianas e sistemáticas como instrumento de controle da biopolítica, que desestrutura emocionalmente os trabalhadores, podendo levá-los a desistir do emprego frente às ameaças cotidianas e ao olhar silencioso dos pares que assistem e testemunham.

As consequências são nocivas para todos os trabalhadores, porquanto causam conflitos em suas vidas, alteram valores, transtornam as emoções e corroem o caráter individual, contribuindo para a fragmentação das biografias laborais e destruição dos laços de amizade no coletivo.

A esse quadro se acrescenta o incremento de atos de violência nas relações laborais, associado ao estímulo à competitividade e à instalação da indiferença com o sofrimento do outro. No marco das transformações, os trabalhadores se sentem isolados e solitários em coletivo, sem reconhecimento de suas potencialidades e criatividade, sem autonomia e liberdade.

Esses fatores são responsáveis pelo desencadeamento de diferentes e novas patologias que estão na base do estado de mal-estar, responsável pelo aumento de suicídios no e do trabalho, mostrando a nova estética da violência em um mundo do trabalho globalizado, no qual o corpo do suicida contém pistas e histórias, sobre o mundo do trabalho, que não foram reveladas.


Autoria de: Venco, Selma e Barreto, Margarida; 2014.

Trabalho na íntegra disponível em: JusLaboris - Biblioteca Digital da Justiça do Trabalho

Photo by Derek Truninger on Unsplash


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2 Comentários

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Bom texto que você compartilhou com a gente @andreiarg02
Só pontuaria para os autores que trabalho precarizado não é uma nova realidade, em tempos pretéritos era inclusive pior :/ continuar lendo

Sim, também achei o texto bom, e oportuno para o momento.

Obrigada pela sua obervação @nataliafoliveira

Beijos e abraços!! :) continuar lendo